Crítica: O Espião que Sabia Demais
Título Original: Tinker Tailor Soldier Spy
Ano: 2011
Direção: Tomas Alfredson
Sinopse: Passado em 1973, em plena Guerra Fria, o longa gira em torno de George Smiley (Gary Oldman), um veterano da divisão de elite do serviço secreto inglês conhecida como Circo. Após a morte de seu ex-chefe e de alguns fracassos em missões internacionais, ele é chamado para desvendar um mistério sobre a identidade do agente duplo que, durante anos, trabalhou também para os soviéticos. Todos à sua volta são suspeitos, mas, como bons espiões que são, foram treinados para dissimular e trabalhar em condições de extrema tensão.
O mote soa simples: existe um agente duplo e um espião experiente é incumbido de encontrá-lo antes que mais informações vitais sejam entregues a terceiros. Entretanto, não se pode deixar enganar: a trama de O Espião que Sabia Demais é de complexidade tamanha que poucos segundos de distração contribuem para que o espectador se perca por longos minutos, podendo fazer assim que ele se perca de novo, já que houve uma nova distração ao tentar sanar a dúvida anterior e assim por diante. Essa abordagem – muitos nomes, apelidos, locais e referências – não chega a ser um ponto ruim do filme, mas vale enfatizá-lo por demandar inteligência e atenção maior de quem está assistindo, uma vez que não há uma camada de fácil compreensão “escondendo” aquilo que realmente deveria ser mostrado.
Com personagens tão complexos quanto à forma de contar sua história, as atuações eficientes representam de forma contida e sutil (na maior parte das vezes) como seria o comportamento das pessoas que assumem funções onde o verdadeiro caráter e a personalidade devem ser subjugados e mergulhados num oceano melancólico estimulante o suficiente para que a premissa básica de qualquer relacionamento seja a desconfiança mútua. Dessa forma, não deixa de ser surpreendente a aproximação e identificação entre estes personagens e quem está no cinema, dada a limitação da espontaneidade daqueles espiões.
Recheado de rostos conhecidos, todos os atores em absoluto dominam seus papéis com segurança e responsabilidade. Voltando à cadeira de protagonista depois de muitos anos, Gary Oldman continua comprovando seu extremo talento e versatilidade ao explorar tão bem um personagem quieto, observador e supostamente muito frio e controlado (o extremo oposto ao policial psicopata de O Profissional e diferente de todos os vilões que interpretou na carreira) e ainda assim mostrar o quão tenebrosa é a idéia da solidão. Não é à toa que está na busca de um Oscar. Colin Firth (O Discurso do Rei), Tom Hardy (Eames de A Origem e novo queridinho das telonas), John Hurt (veterano desde Alien até Melancolia), Mark Strong (Sinestro de Lanterna Verde), Toby Jones (Dr. Zola de Capitão América), David Dencik (Millenium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres) e – destaque para – Benedict Cumberbatch (Cavalo de Guerra) formam o resto do time que faz mais do que não deixar a desejar: conseguem fazer com que seu tempo em cena seja muito bem aproveitado.
Curioso é perceber que a própria revelação do agente duplo nem chega a ser algo tão valorizado, já que diante do cenário em que aquelas pessoas vivem se trata apenas de mais um traidor e também porque uma grande balbúrdia definitivamente não se aplica às suas condições. Ajuda o fato de a trama ser interessante por si só e fazer com que se espere e se preste atenção a outros elementos da mesma, mudando inclusive o foco da busca.
Exibindo uma fotografia cinzenta e depressiva, O Espião que Sabia Demais assume uma posição de destaque no que diz respeito à espionagem, mostrando um mundo mais próximo da realidade do que o dos apresentados em Missão: Impossível e 007. Sem explosões, trilha sonora claramente manipuladora, reações e malabarismos exagerados, ainda assim a tensão está lá: invisível, porém sufocadora, exatamente como num jogo de xadrez. Já é o segundo longa de qualidade do sueco Tomas Alfredson que chama a atenção do grande público (o primeiro foi o excelente Deixe Ela Entrar, de 2008, sobre uma menina vampira e seu colega, cujo remake americano, Deixe-me Entrar, foi lançado em 2010) e mostra algum padrão entre suas obras: abordagem minimalista dos grandes temas e foco nas relações humanas. Até então, tem se saído muito bem e torcemos para que continue assim.
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