Excursos Sentimentais após a Orgia para Ouvidos

On Thursday, September 29th, 2011

foto: Thomas O'Rourke / flickr.com

O acontecimento do ano não podia ser a melhor maneira de começar essa coluna. O The Fall, que merece todo seu respeito não somente por ser uma das mais ativas bandas da história, vem ao Brasil com duas datas confirmadas. O mais excelente nisso é o fato dessas duas datas estarem fora de São Paulo, apesar da apresentação na metrópole ainda estar pendente e a negociação com o SESC não ter rendido resultados – exceto por Guillemots e HEALTH, que se apresentam no SESC Pompéia dia 13/10. A banda de Mark E. Smith com sua avó tocando bongos toca dia 12 de outubro, em Salvador, no Teatro Castro Alves; e dia 14 de outubro, em Recife, na UFPE. Quem traz a banda é o festival Coquetel Molotov, que também acrescenta a sua escalação o Racionais MC.

Passaram mais de 20 anos (22, na verdade), desde a primeira vinda da banda às terras brasileiras. Mark E. Smith disse numa entrevista de 1991 à Wire que não voltaria aqui. Cita-se:

“Eu não iria [ao Brasil] de novo. Partiu meu coração. Você está tomando café da manhã no hotel, ovos com bacon. Você olha pela janela e há cinco crianças, crianças negras, todas de cores diferentes, uma tem um braço, outra uma perna; e todas estão chorando, olhando você comendo ovos com bacon. Eu disse ao tour manager, ´eu quero cair fora daqui, rápido´, mas a coisa mais esquisita foi que, no avião haviam todos esses tipinhos hippies vestindo veludo cotelê e dizendo, ´eu realmente amo o Brasil porque…’. No Brasil, por cinco libras. Todos esses tipinhos hippies estavam indo ao Brasil para ajudar pessoas nas favelas. É como a Índia, o mesmo agito: por cinco libras e cinquenta centavos você pode morar com um cara, comer a mulher dele, tomar todas as drogas que quiser, mas ajudar que os está ajudando. É imperialismo, mas você se sente bem com isso porque os está ajudando”.

Naquela época, o the Fall tocou no Rio de Janeiro. 1989 estávamos sob inflação galopante e o desastre do Plano Verão; considerando que a realidade da vida brasileira pré-real e pré-Lula podia ser substancialmente diferente. Disso, alguma leve diferença Mark E. Smith notará. Outra, nem tanto.

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A lembrança de quem esteve por lá divide-se entre fãs e não fãs. Os fãs, como todo fã de Fall, lembram como um momento inesquecível. Alguns não abrem mão da fita que circula por aí – até onde sei, existem seis e, sem sucesso, tentei conseguir uma delas com um de seus donos, que se recusava inclusive a tentar gravá-la. Os não-fãs não gostaram e muito se esculachou Lulu Santos, que reclamou da qualidade dos dois shows. Alguma polêmica que não consigo apurar novamente também ocorreu; algo porque a banda parece ter se recusado a tocar Victoria, na época no topo das paradas brasileiras. Mas citemos novamente a entrevista:

“Nós tocamos no Brasil e este lugar tinha algo como 10 mil pessoas ali, mas eles trancaram os fãs do The Fall, cinco mil deles, numa gaiola no fundo, com guardas segurando metralhadoras. No meio do hall estavam jornalistas, caras de óculos, tipos NME. Na frente – era como um castelo – todos esses caras com barbas respeitáveis e suas famílias, jantando com seguranças. Eu estava falando com alguns caras lá fora e um ingresso para o show era como dois meses de salário para um balconista ou um motorista de ônibus. E essas são as pessoas que estão na gaiola, que tem correntes e tudo o mais. Mas na segunda noite eles quebraram a m**** da gaiola e vieram correndo para o bis. Eles não estavam sendo violentos. Eles passaram direto pelos jornalistas, que deram passagem, e correram através dos figuraças, não caras ruins, mas ricos, sabe, velhos espanhóis sentados na frente, com suas mulheres, suas boinas espanholas; eles passaram direto por eles. Isso foi ótimo”

E agora coloquemos em perspectiva o que ocorre em São Paulo. Eventos recentes tem exemplos inúmeros do descaso com o público que Mark E. Smith reclama. Os shows não parecem feitos para o público, mas para uma espécie de pirâmide social que oscila entre VIPs convidados e pessoas com carteiras devidamente gordas. A ausência de jornalistas e críticos de música, pessoas especializadas, é notável, já que foram substituídos por blogs que podem oferecer uma cobertura superficial, atender às demandas de formar opiniões para as tendências de consumo – apesar de que, de fato, conheço vendedores de disco mais qualificados do que qualquer “profissional” para cobrir esses eventos.

Os ingressos são abusivos e as entradas de estudante terminam ilegalmente. As casas são cada vez mais intolerantes e, em alguns eventos, como Green Sunset Party, os mesmos seguranças que contrabandeiam ingressos são truculentos na hora de corrigir o que foge da política da organização; uma espécie de picuinha e burocracia desnecessária, inflexível, que logo prova sua ineficácia.

Não desconsideremos a infecção de uma cultura hipster voltada ao hype e seu ciclo, que cresce cada vez mais e parece transformar qualquer coisa importante em mero acaso. Mas isso é algo a ser retratado ainda, para evitar a exaustão nesta primeira dose.

São Paulo pode ser grande e oferecer muitas oportunidades, mas é uma cidade careta e cafona.

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Esta é a primeira coluna e, antes de qualquer explicação, o leitor pode se espantar pelo seu tamanho. Oras, resolvamos isso logo: o problema do jornalismo na internet é justamente temer explorar conteúdo. Justamente, é uma mídia que permite espaço infinito, ao contrário de revistas, jornais, rádio, televisão etc. sempre limitados por espaço e tempo.

Também pode parecer repleta de discurso pretensioso, mas a falta de pretensão já fez muitos males à cultura contemporânea, ainda mais à cultura pop.

Sobre o título, isso será explicado depois.

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Encerrando esta pauta, o show do The Fall prevê o lançamento de seu 29o álbum. Ersatz G.P., algo como “Reparação Grã Bretanha” sai pela Cherry Red Records, que é responsável por três DVDs do grupo. Se você pretende ir a um dos shows, já pode preparar-se para conhecer um pouco do material novo. Greenway, Laptop Dog e Cosmos 7 são algumas das que figuram em setlists recentes. No site do selo você já pode encomendar o CD, mas eu esperaria pelo vinil surgir por aí.

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A quarta-feira começou com uma péssima notícia; a morte de Redson Pozzi, vocalista do Cólera. Lembro-me de shows longuíssimos e de discursos entre as músicas, mas, diante dessa notícia, esperava poder assisti-los para sempre. É verdade que as pessoas não se importam com o punk rock como já se importaram, que nem sequer se importam mais com qualquer coisa que seja rock desde 2006, sequer no circuito alternativo. Mas eu esperava que os longos momentos dos shows do Cólera durassem mais, pelo menos mais dez anos, para me dizer satisfeito – e me arrependo muito de ter perdido a oportunidade de ver seus últimos shows.

Sem vergonha de soar cafona, nunca cheguei a conhecer direito o Redson, nosso contato mais próximo foi uma entrevista que fiz com ele. Na ocasião, contou que passou a noite no estúdio e estava empolgado para seu show no fim de semana, convidou-me efusivamente e não teve problemas em responder com discursos, não sendo lacônico de maneira alguma. Poucas pessoas se dedicaram assim a uma causa e isso justifica muito a inspiração que ele tirava de Joe Strummer, do Clash. E numa época em que a intolerância e a ignorância são glorificadas por muitos, às vezes teremos medo, mas nunca deixaremos de nos importar.

PS: No mesmo dia, um dos skinheads responsáveis por fazer dois meninos pularem de um trem em movimento, em Mogi das Cruzes, recebeu 31 anos de pena. Se bem me recordo, um dos dois vestia uma camiseta do Cólera.

Posted in Arte, Música
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